Esta é, talvez, a pergunta que mais ouço de quem está a pensar dar o primeiro passo:
“Dr. Artur, mas quanto é que eu preciso, afinal, para começar a investir em REITs?”
Por trás dela esconde-se quase sempre um receio: o de que isto seja “para os outros”. Para quem tem dezenas de milhares de euros parados, para quem percebe de bolsa, para quem já vem de família com dinheiro. E como a pessoa não se vê nesse retrato, adia. “Quando tiver mais, começo.”
Quero ser direto consigo: a resposta honesta é que precisa de muito menos do que imagina. E, mais importante do que o número, há uma forma certa e uma forma errada de começar pequeno.
A resposta curta
Tecnicamente, pode começar a investir em REITs com algumas dezenas de euros. Uma única ação de muitos REITs cotados custa, na maioria dos casos, menos do que um jantar fora. Não precisa de comprar o imóvel, não precisa de entrada bancária, não precisa de escritura. Compra uma fração de uma empresa que já detém e gere imóveis de rendimento, e passa a ter direito à sua parte desse rendimento.
Foi exatamente para isto que os REITs foram criados, em 1960, nos Estados Unidos: abrir o grande imobiliário (que até aí pertencia a bancos, seguradoras e pessoas muito ricas) ao investidor comum. A barreira de entrada, que no imóvel físico é altíssima, aqui é deliberadamente baixa.
Mas “poder começar com pouco” não é a mesma coisa que “começar bem com pouco”. E é aqui que tenho de ser honesto consigo.
O senão que quase ninguém lhe conta: as comissões
Quando se investe pouco, há um inimigo silencioso que pesa muito mais do que parece: os custos.
Imagine que a sua corretora cobra uma comissão fixa por cada compra. Se essa comissão for, digamos, alguns euros, e você investir apenas 20€, essa comissão pode representar uma fatia enorme do que investiu. É como pagar portes de envio caríssimos por uma encomenda barata. O produto pode ser bom, mas o custo de o receber estraga o negócio.
Isto não significa que não deva começar com pouco. Significa que, começando com pouco, tem de ser ainda mais cuidadoso com três coisas: a corretora que escolhe (e a sua tabela de comissões), a frequência com que compra (muitas compras pequenas multiplicam os custos) e os custos escondidos: câmbio, custódia, e a fiscalidade que se aplica aos dividendos.
A boa notícia é que tudo isto se resolve com conhecimento. Há formas de minimizar comissões, de escolher a corretora certa para o seu perfil e de organizar as compras para que os custos não comam o resultado. Pouco dinheiro não o deixa fora do jogo. Custos mal controlados é que podem.
O verdadeiro poder não está no valor inicial. Está no tempo.
E agora a parte que me faz gostar tanto deste tema.
A pergunta “quanto preciso para começar?” foca-se no momento de entrada. Mas o que constrói património não é o valor com que começa: é a consistência ao longo dos anos, somada a uma força silenciosa: o reinvestimento dos dividendos.
Quando recebe um dividendo e o usa para comprar mais ações, essas novas ações passam também a pagar dividendos. E esses novos dividendos compram ainda mais ações. É uma bola de neve que, no início, parece insignificante, mas que ao fim de uma ou duas décadas pode mudar completamente a fotografia.
Imagine alguém que começa com pouco, mas que reforça um valor modesto todos os meses e reinveste o que recebe. Ao princípio quase não nota diferença. Mas o tempo trabalha para si. Anos depois, pode dar por si a receber em dividendos, num único mês, mais do que aquilo que conseguia poupar nesse mesmo mês. É o momento em que o dinheiro começa, finalmente, a trabalhar mais do que você.
Não lhe prometo que isto seja rápido nem garantido: não é, e quem lhe prometer riqueza fácil está a enganá-lo. Mas o princípio é real, e está ao alcance de qualquer pessoa que comece cedo, comece com método e seja consistente.
Então, qual é o número certo para si?
A resposta honesta é: o número certo não é universal. Depende de quanto consegue investir sem comprometer o seu dia a dia, da estrutura de custos da sua corretora e da frequência com que pretende comprar.
Mas posso dar-lhe uma forma sensata de pensar nisto. Em vez de perguntar “qual o mínimo para comprar uma ação?”, pergunte “qual o valor a partir do qual a comissão deixa de pesar de forma absurda no que invisto?” Esse é o verdadeiro mínimo prático. Para muitas pessoas, juntar as compras em montantes um pouco maiores e menos frequentes faz mais sentido do que comprar 10€ todas as semanas e pagar comissão de cada vez.
E há ainda a pergunta mais importante de todas, que não é sobre quanto, mas sobre o quê: que REITs comprar com esse dinheiro. Porque começar com pouco e comprar mal é o pior dos dois mundos. Um dividendo alto demais pode ser uma armadilha; uma empresa endividada pode cortar o pagamento; um setor em declínio pode destruir valor durante anos. O tamanho da sua entrada não o protege de nenhum destes erros: só o método o faz.
A conclusão
Se está à espera de ter “muito dinheiro” para começar, deixe-me tirar-lhe esse peso: não precisa. Pode começar com pouco, e milhões de pessoas pelo mundo construíram rendimento exatamente assim, uma pequena compra de cada vez.
O que precisa, isso sim, é de começar com critério: escolher bem a corretora para os custos não o penalizarem, escolher bem os REITs para não cair em armadilhas, e ter a paciência de deixar o tempo e o reinvestimento fazerem o trabalho pesado.
É precisamente esse método que trabalho no CIR: como começar mesmo com pouco, como evitar que os custos lhe comam o resultado, e como escolher REITs que façam sentido, para que o seu primeiro passo seja pequeno, mas dado na direção certa.
Há uma coisa que este artigo deixou clara: o que constrói o resultado não é o dinheiro com que começa, é o tempo que dá ao processo. E o tempo tem uma característica cruel: não volta atrás. Cada mês que adia não é um mês neutro; é uma bola de neve que não chegou a começar a rolar. A boa notícia é que o passo de hoje pode ser pequeno. Só não pode ser adiado mais uma vez. Estou disposto a começar bem, mesmo que seja com pouco? Se a resposta é sim, o método está aqui.