Se tem dinheiro em Certificados de Aforro, está em boa companhia. São, de longe, a poupança preferida dos portugueses, e não é por acaso: o capital é garantido pelo Estado, o dinheiro está sempre à mão e não é preciso perceber nada de bolsa.
Não lhe vou dizer que fez asneira. Mas vou fazer-lhe uma conta que quase ninguém faz, e que talvez o incomode.
Porque é que os portugueses adoram os Certificados de Aforro
Vale a pena começar por dar-lhes o que é seu. Os Certificados de Aforro têm três virtudes reais:
- Segurança máxima: são dívida do Estado português. O seu capital não desaparece porque a bolsa teve um mau dia.
- Liquidez: pode resgatar o dinheiro praticamente quando quiser, sem grandes penalizações.
- Simplicidade: subscreve online, sem corretoras nem decisões difíceis.
Para o fundo de emergência ou para dinheiro que vai precisar dentro de um ou dois anos, isto é ótimo. O problema não é terem Certificados de Aforro. O problema é ter lá o dinheiro todo, durante anos, a pensar que está a poupar para o futuro.
A conta que dói
Vamos aos números reais, de fontes oficiais. Em setembro de 2026 a taxa base da Série F subiu ao máximo permitido: 2,5% brutos ao ano, o teto da série[1]. Parece o melhor cenário possível. Agora tire de lá o que o Estado tira:
- Menos 28% de IRS sobre os juros[1]. Os 2,5% passam a cerca de 1,80% líquidos.
- Menos a inflação. Em junho de 2026, os preços em Portugal subiram 3,2% num ano[2].
Faça a subtração: 1,80% de rendimento, 3,2% de inflação. O seu dinheiro seguro está a render, na prática, isto:
E antes que pense “mas há os prémios de permanência”, sim, há, e são bem-vindos: somam 0,25% a partir do 2.º ano e vão subindo até 1,75% ao fim de 14 anos[1]. Mesmo assim, nos primeiros anos, a conta continua no vermelho face à inflação. Está a pagar ao Estado para lhe guardar o dinheiro enquanto ele vale cada vez menos.
O que os Certificados nunca lhe vão dar
Há aqui uma diferença que muita gente nunca parou para pensar: poupar não é investir. Um Certificado de Aforro é uma conta que paga um juro. O seu capital não cresce: é sempre o mesmo número, com juros por cima. Nunca vai valer mais porque a economia cresceu, porque nasceram novos negócios, porque os ativos se valorizaram.
É exatamente isso que investir em REITs lhe dá e o Certificado não: ser dono de ativos que valem mais com o tempo (imóveis de rendimento, cotados em bolsa) e receber uma fatia das rendas enquanto isso.
Certificados vs REITs: o que rende, a sério
Ponha os números lado a lado. À esquerda, o que a poupança segura lhe paga. À direita, o rendimento dos REITs americanos, em dividendos, e em retorno total (dividendos mais valorização) ao longo de meio século:
A linha amarela é a inflação, o mínimo para não perder dinheiro. Os Certificados de Aforro (líquidos) ficam abaixo dela. Os dividendos dos REITs já a superam; o retorno total, ao longo de décadas, fica noutra escala. Valores brutos anuais; tanto os juros dos Certificados como os dividendos de REITs pagam 28% de IRS. Fontes: IGCP[1], INE[2] e Nareit[3][4].
E não fujo do senão, porque ele é real: os REITs oscilam. Há anos maus, e vai ver a cotação cair. O capital não é garantido, como é nos Certificados. A diferença é que, a troco desse desconforto, o seu dinheiro trabalha, em vez de derreter devagarinho a uma taxa fixa abaixo da inflação. É a mesma lógica de quem percebe porque os REITs batem o S&P 500 no longo prazo.
Então, deite fora os Certificados? Não.
Seria desonesto dizer-lhe isso, e eu não o faço. Os Certificados de Aforro têm um lugar: o seu fundo de emergência, o dinheiro de curto prazo, aquilo que não pode perder de todo. Aí, a segurança vale mais do que o rendimento.
O erro é outro: deixar lá, durante 10 ou 20 anos, dinheiro que devia estar a crescer. Cada ano que a sua poupança de longo prazo passa num Certificado a render −1,4% reais é um ano de crescimento que não volta atrás. Nem é preciso muito para começar a mudar isso: ter pouco dinheiro não o deixa de fora.
A pergunta certa
Não é “Certificados ou REITs?”. É: quanto do seu dinheiro está a salvo, e quanto está apenas parado? Há quem deixe a parte de segurança nos Certificados e ponha a de longo prazo a crescer, a mesma pergunta de onde investir uma quantia como 10.000 €. Nada disto é aconselhamento financeiro.
Fazer isso bem (escolher os REITs certos, montar a carteira, tratar dos impostos sem sustos) não se faz com um artigo de blog. É método. É precisamente o que ensino, passo a passo, no meu curso de REITs.
Para continuar a arrumar as ideias, estes três assentam bem a seguir: o guia do que são REITs, o caso de imobiliário físico vs REITs e a razão de os REITs baterem o S&P 500.
Perguntas frequentes
Os Certificados de Aforro são um bom investimento? Como reserva segura e de curto prazo, são úteis: o capital é garantido pelo Estado e o dinheiro está sempre disponível. Como forma de fazer o património crescer a longo prazo, não: mesmo no máximo (a taxa base subiu ao teto de 2,5% em setembro de 2026) não bate a inflação depois dos 28% de IRS, e o capital nunca se valoriza.
Quanto rendem os Certificados de Aforro em 2026? A Série F tem uma taxa base indexada à Euribor a 3 meses, com um teto de 2,5%. Em setembro de 2026 subiu ao máximo permitido, 2,5% brutos. A partir do 2.º ano somam-se prémios de permanência (de 0,25% até 1,75% ao fim de 14 anos). Os juros pagam 28% de IRS.
É melhor ter o dinheiro em Certificados de Aforro ou em REITs? Depende do objetivo, e não são a mesma coisa. Os Certificados são segurança (capital garantido, sem crescimento). Os REITs são crescimento (dividendos mais valorização, historicamente muito acima da inflação), mas oscilam e podem cair. O erro não é usar Certificados, é deixar lá, a perder para a inflação, dinheiro que devia estar a crescer.
Os REITs pagam mais do que os Certificados de Aforro? Em rendimento corrente, os REITs americanos rendiam 3,66% de dividendos em junho de 2026, acima da taxa base dos Certificados. Mas a diferença que conta é o retorno total: entre 1972 e hoje, os REITs renderam em média 11,54% ao ano (dividendos mais valorização). É outra escala, com mais risco.
Fontes
- IGCP: Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública. Certificados de Aforro, Série F (taxas e ficha técnica). igcp.pt. Taxa base de 2,5% (o teto da série) em setembro de 2026, prémios de permanência e retenção de 28% de IRS sobre os juros.
- INE: Instituto Nacional de Estatística. Índice de Preços no Consumidor. ine.pt. Taxa de inflação de 3,2% em junho de 2026 (variação homóloga).
- Nareit: Quarterly REIT Performance Data (dividend yield). reit.com. Dividend yield do FTSE Nareit All Equity REITs de 3,66% em junho de 2026.
- Nareit: REIT Industry Fact Sheet. reit.com. Rentabilidade anual composta de 11,54% do FTSE Nareit All Equity REITs entre 1972 e a atualidade.